INTRODUÇÃO – PARTE II

Nossos heróis se encontram em difíceis situações. Conforme tentam achar uma solução para seus problemas, eventualmente descobrem que o mundo pode ser um lugar muito cruel.

Em breve, o Capítulo 1.

– Mike B. Dilelio

CHUCK WYLLETH

 A clareira era cercada pela floresta como se fosse uma arena, o que era um alivio diante a densidade e imprevisibilidade da mesma. Chuck pôde notar o azul dos céus enquanto um grupo de pássaros passava por cima. Calculara ser o início da manhã, talvez. A pancada que tomou o tinha deixado tonto. Chuck estava tão desnorteado que demorou em notar a coisa mais improvável que veria em Rubram: não havia carne, apenas ossos. O amarelado envelhecido pelo tempo, misturado com o branco natural de uma ossada. A única coisa que chamava mais a atenção de Chuck era o tamanho daquela monstruosidade. Fazendo uma breve análise, constatou que seria um dragão adulto, uma besta quase que extinta no continente de Celosia, a menos em pontos isolados ao norte do continente. Imaginou que o dragão deveria ter caído acidentalmente na floresta de Rubram. Ao se aproximar percebeu que bem no meio do seu crânio havia o que supostamente mataria a besta: um furo provocado por uma lâmina, uma espada, provavelmente. A visão periférica de Chuck foi consumida pela monstruosidade da besta, só depois percebeu sua espada cravada no chão muito perto do focinho do dragão. Era muita ousadia se aproximar de uma besta daquelas, pois mesmo morta ela intimidava. Rubram tinha todos os motivos para pregar uma peça no jovem guerreiro. Quando se aproximou pode ouvir estalares de gravetos em torno do dragão. Ele olha lentamente para a enorme ossada esperando que por alguma bruxaria a besta se revelasse viva. Com todo o cuidado ele leva a mão até a espada, com a expectativa de que algo ruim poderá acontecer a qualquer momento e vindo ainda daquele ser que jazia na sua frente.
Um breve momento é tudo que há de ser consumido para finalmente estar com a espada de seu ancestral em mãos.

– Eu costumava a ter uma dessas. – Primeiramente, a voz veio de lugar nenhum, se concentrando, ao final da frase, atrás de Chuck.

Ao virar-se, Chuck vê um guerreiro sentado, encostado em uma das árvores. Não dava para ver seu rosto com precisão, a pancada deixou a visão de Chuck turva e havia uma sombra no rosto do homem que dificultava ainda mais ser identificado. Próximo ao guerreiro havia uma fogueira acessa que estalava seus galhos queimando vez ou outra. Sua armadura não tinha nada demais, além de arranhões que demonstram muito uso e uma capa que estava rasgada na parte de baixo. Não havia nenhuma arma com ele.

– Mas eles a tiraram de mim. – Ele tapa o rosto com as duas mãos lamentando e então volta atenção para Chuck. O homem começa a se levantar lentamente. – Ela era bem polida, havia ornamentos em no seu cabo. Era herança da minha família, exatamente como a sua, mas eles a tiraram de mim, eles tiraram tudo de mim. – Ele começa a rir macabramente. – Eu era um herói e eles tiraram de mim até mesmo meu NOME! – Essa frase ecoou pelos arredores fazendo com que as chamas da fogueira se enaltecessem sua frente.  O guerreiro volta a atenção para o dragão. – Fui eu que matei esta besta. Eu salvei a aldeia em que vivia, e ainda sim eles se esqueceram de mim. – E novamente para Chuck. – Mas eu entendo agora, essa espada, é o elo que faltava. O elo que faltava para minha liberdade. E você está no meu caminho.

O corpo do guerreiro sai da sombra que ele se escondia revelando uma ser fantasmagórico com a pele decomposição. Ele avança em direção a Chuck com apenas as pontas dos pés raspando o chão em uma velocidade assombrosa.
Chuck puxa sua espada do solo a tempo de se defender, penetrando o estômago do Guerreiro Fantasma que para de avançar na mesma hora. Pequenas fagulhas saem da ferida provocada pela Flama.
– Isso me traz memórias de muito tempo atrás. – diz o guerreiro fantasma
Os olhos se cruzam, o guerreiro morto e o guerreiro vivo. As mãos de Chuck se apertam na empunhadura. As fagulhas de Flama percorrem o corpo do Guerreiro Fantasma o desintegrando totalmente.

A clareira absorta em breve silêncio é consumida pelo som de pássaros, do vento nas árvores. É como que se aquele local tivesse ganho a vida que a muito não existira ali.

CLACK! CLACK!

Os estalares vem dos ossos do dragão. Por um breve momento pode parecer que de alguma forma aquela besta morta, assassinada com um golpe do Guerreiro Fantasma, irá erguer-se e atacar Chuck. Mas, risos infantis, porém maquiavélicos podem ser ouvidos. Do meio das ossadas do dragão, pequenas formas humanas esverdeadas, de orelhas largas e pontudas, com dentes afiados usando trapos e armas forjadas a partir de madeira e pedra, começando a escalar. São goblins e estes são selvagens. Eles partem para cima de Chuck.

Chuck recua com Flama empunhada segurando-a firme, emana uma essência que lembra o fogo, porém eles vêm de todos os lados agora. O cerco está feito. A morte é quase inevitável. São muitos goblins para Chuck lidar sozinho. Um deles segurando um porrete de madeira é o primeiro a partir em direção ao guerreiro. Flama corta o ar dividindo o goblin em dois e deixando ambos os pedaços em chamas. Um deles se aproxima das costas de Chuck, e o guerreiro percebendo o eminente ataque vira-se rapidamente, mas a defesa é em vão e o goblin o acerta com um porrete no rosto quebrando seu nariz. Sangue começa a escorrer de sua boca. O goblin aproveitando a oportunidade desfere um golpe no joelho do guerreiro, fazendo-o se apoiar com apenas uma perna cravando a espada no chão para não cair totalmente. Os goblins riem e debocham sadicamente. Um deles se aproxima com o que parece ser um martelo de guerra feito com pedra. Ele ergue sobre sua pequenina cabeça e largas orelhas onde é o limite de seu sorriso. Chuck, com o gosto forte e metálico do sangue em sua boca, olha para o fundo dos olhos do goblin. Há apenas raiva ali. O goblin ruge, o martelo começa a descer.
A única coisa que Chuck consegue fazer nesse momento é piscar seus olhos por simples reflexo logo que ele sente um líquido quente escorrer por sua face. Quando consegue se dar por conta que ainda mantém sua consciência, ele vê o goblin a sua frente com uma flecha atravessada em seu olho esquerdo, tombando no chão, morto. As risadas macabras cessam, tomando conta o desespero entre os pequenos e assustadores goblins quando uma saraivada de flechas começa a voar para cima deles. Vários goblins caem, e os que permanecem vivos são punidos pelo aço de um grupo de guerreiros que surge. Eles passam correndo por Chuck, desferindo golpes com espadas e machados. Lutaram com as pequenas bestas até que não sobrasse nenhuma viva. As que tentavam escapar logo eram pegos pelas flechas que voavam acertando em cheio.
– Você está bem, guerreiro – falam as botas que pararam na frente de Chuck. – Ajudem-no.
Alguns homens ajudam Chuck a manter-se em pé. Seu joelho doía muito, em compensação recobrava a consciência aos poucos.
– Então, você se meteu com Rubram? Rá! Devia ter mais cuidado onde se enfia, o que estava fazendo aqui afinal? – perguntou o homem, cujo Chuck vê a face agora. Cabelo comprido, barba longa, uma veste de couro rígida e por baixo uma cota de malha.
Fraco, cansado e com dor, Chuck responde da forma mais clara que podia.
– Eu agradeço sua ajuda, mas o que me traz a Rubram, é problema meu.
O homem ri alto como se fosse uma grande piada.
– Eu tô começando a gostar de você. Eu vi sua espada de longe, essa pirotecnia toda foi demais, é magia né? Bem, eu não aprovo o uso de magia. Bah! Aqueles magos são estúpidos, acham que dominar o poder arcano é algo relevante para eles, acham que podem controlar tudo e a todos. Imagina só. Mas dessa vez eu tiro o chapéu pra esses merdas, se não fosse por um deles, não poderíamos encontrar a saída daqui. – diz o homem. – Alias, meu nome é Ahmes.
Ele estende a mão para Chuck que o cumprimenta.
– Fale ali com o mago. – Ele aponta um jovem sujeito que se esconde sobre um manto. – Ele vai lhe ajudar a sair daqui, se conseguir andar, é claro.
– Eu me viro.
– Tudo bem. Ei! Seu mongolóide! – grita para o mago – Mostre a saída para ele.
Chuck ergue-se sem a ajuda dos homens. A dor no joelho era aguda, mas achou melhor sair dali logo, não sentia-se seguro com aquele homem.
– Puta merda, olha o tamanho dessa coisa – diz Ahmes olhando o corpo do dragão.

O mago é jovem e abaixa a cabeça enquanto Chuck se aproxima. Ele pega uma bolsa e tira de lá um frasco entre muitos que havia ali dentro. Dentro, um grilo. O mago então põe a palma da mão embaixo do frasco e diz um encantamento em uma língua que Chuck desconhece.
– Siga para aquela direção. – Aponta o jovem mago. – A mais ou menos 2 km o grilo irá começar a cantar. Quando isso acontecer, vire para direita e não pare, o canto do grilo ficará mais forte conforme você se aproximar da saída. E quando ele não for mais útil para você, por favor solte-o, não faça que nem esses bárbaros e esmague o pobre bicho.
Chuck acena com a cabeça.
– Obrigado.
Chuck vira-se para sair. O mago o puxa pelo braço e começa a olhar para ele.
– Eu sinto muito – diz.
– Pelo que? – pergunta Chuck.
– Ei seu merdinha, vem aqui! – grita Ahmes.
O mago vira-se e vai em direção a ele.

O ar começa a ficar mais fresco, a luz do sol surge com mais intensidade. O grilo encerra o seu canto, estava próximo da saída. Mas ele não se moveu, lembrou do motivo de estar ali. Queria ser forte, precisava ser forte. Tudo o que conseguiu foi um nariz quebrado uma lesão no joelho. Ele liberta o grilo. Talvez se voltasse, não podia prever o que aconteceria em Rubram, ainda mais com o joelho doendo e um homem como aquele rondando por lá, mas não podia desistir, estava com a espada de seu pai, Flama, a chama que enaltece o coração dos homens. Teria o dobro de cuidado e cumpriria sua promessa. Quando ele se vira para voltar a Rubram, um punho fechado vem em sua direção acertando seu nariz quebrado. Instantaneamente Chuck cai para trás urrando de dor. Ele tenta ver o que estava acontecendo. Uma jovem maga, usando as mesmas roupas do outro mago, estava assustada olhando para ele, ela segurava um frasco com um grilo, ao seu lado, vários homens começam a surgir portando cimitarras. Um deles, com dentes de prata, uma barba negra com alguns fios brancos e um cabelo comprido e negros, chega próximo ao guerreiro no chão.
– Tu é um bom guerreiro. Reconheço homens fortes. Fazes muito trabalho braçal com essa tua espada? – perguntou o homem dos dentes de prata.
Flama estava caída ao lado de Chuck, que tenta sem forças esticar o braço para alcançá-la
– Por favor, não o machuque – diz a maga.
– Quieta, sua bruxa! – esbofeteia um dos homens derrubando ela e fazendo o frasco com o grilo se quebrar.
O homem com os dentes de prata se vira para ver o que havia acontecido e enquanto a pobre a maga chora no chão
– QUE MERDA, FITZ! Te falei para fazer algo com a pobre moça? E agora que quebrasse a porra do frasco e o grilo fugiu, tem noção de quanto tempo levamos pra pegar um desses!
– Mas Calvero, ela estava incomodando e eu..
– Cala a boca, seu filho da puta! – diz o homem dos dentes de prata, que se chama Calvero.
Ele volta a atenção para Chuck.
– Bem. – Ele olha Chuck de cima pra baixo que não deixa de expressar raiva. – Não há mais nada a dizer, tu vens junto.
– E Ahmes? – pergunta outro homem.
– Ahmes está a sua sorte. Fiz minha parte dizendo para ele se manter longe desse lugar de bosta, deixo-os ir. Vão saber se virar.
Os homens arrastam Chuck. Do lado de fora, o sol brilha intensamente. Na saída várias carruagens com grades aguardavam. Haviam vários seres presos lá. Eles jogam Chuck para dentro.

Na temida floresta de Rubram, um grilo em um dos galhos observa enquanto várias carruagens partem, se perdendo no horizonte.

TAAL

Já se passaram três dias e a comida ficava cada vez mais escassa. O verão agora não parecia tão agradável, mesmo pela manhã, também pudera, estar dividindo um cubículo embaixo do chão com duas pessoas não era nada fácil. O esconderijo foi a única forma que encontraram para se proteger. O que equilibrava a mente de Taal era o olhar da jovem serviçal. Um olhar ingênuo e doce, e ainda mais quando se enchiam de lágrimas por lembrar que estava naquela situação. Ela era como o foco para meditação do elfo. Até que ele tivesse vontade de fazer suas necessidades e se dava conta que havia um único balde ali dentro para os três. Dormir também não era nada fácil. Em uma das noites, Taal teve um sonho que jurava ser o mais entranho de todos que tivera em suas centenas de anos.

Sonhou o efêmero, com algo cativo por entre choros e desespero. Sentia o gosto de ferro que o sangue costuma ter. Sentiu-se ébrio e avistou um laranjeiro ao fundo onde uma única laranja estava pendurada. As lamúrias culminaram para um único ponto: o laranjeiro. O ébrio virou sóbrio. Os dotes élficos lhe permitiram escutar uma clemência vinda da árvore, um pedido de ajuda, um pedido de salvação. “Faça o que for preciso, faça o que for preciso”. A laranja corta o laço com a árvore e cai no chão. Ao tocá-lo ela apodrece logo. Os gritos de desespero se tornam tão fortes que fazem Taal acordar de susto.

O porão escondia-se abaixo de um tapete em uma sala que ficava atrás do balcão da taberna de Ilma e servia como despensa para seus produtos.  Alguns homens à aldeia de Vris a três dias dormiam envolto a garrafas de bebidas dentro da taberna. Taal durantes esse tempo tentava bisbilhotar para ver a melhor oportunidade de fuga.
– Se preparem – diz Taal para Ilma e a serviçal. – Vamos sair daqui, mas precisamos ser cautelosos. Tudo bem?
Ambas concordam.
– Eu irei sair, ver como está lá fora e logo volto.
Taal levanta o alçapão e observa. Ele consta 5 homens deitados em cima das mesas ou no chão. Dormindo bêbados devido a mais uma noite de assassinatos e estupros. Taal sobe, ele vê que a porta está aberta, lentamente vai em direção a porta.
Ao sair para o vilarejo, Taal vê o pior cenário de sua vida! Uma pilha de corpos de aldeões cheio de moscas em volta e alguns porcos comendo sua carne podre. No centro, o palco móvel dos saltimbancos ainda estava lá e o cenário era ainda mais grotesco: a placa onde diz “O GRANDE GRUPO DE BALOO” agora fazia uma introdução macabra as cordas amarradas que sustentavam os corpos dos atores, já apodrecendo.
Alguns passos podem ser ouvidos, dois sujeitos se aproximam.
– Quando vamos embora daqui, essa merda toda já tá fedendo. – diz um homem que se aproxima com outro.
– Não está fedendo mais que você? Qual foi a última vez que tomou banho? – perguntou o outro. – Ahmes disse para esperarmos o sujeito, um tal de Calvero que deve chegar ainda hoje e levar algumas pessoas.
– O que eles fazem com eles? – perguntou o sujeito que não tomava banho e aparentava ser meio retardado.
– Eles são usados para serviço braçal em Basaram, não passam de escravos! – respondeu o que era um pouco mais inteligente.
As carruagens se aproximam sobre a lama criada com o sangue de inocentes. Um homem de barbas e cabelos negros, com dentes de prata desce, é Calvero. Ahmes o recebe de braços abertos.
– Rá! Calvero! Quando tempo, meu velho! Finalmente um rosto familiar.
Ele está pronto para abraçar Calvero, quando este lhe renega o abraço, olhando instantaneamente para seu olho, que depois de três dias, fez que com que toda a infecção ali secasse.
– Que merda fizeram com teu olho? – disse cerrando os olhos e se aproximando do rosto de Ahmes.
– Elfos, Calvero! Os putos dos elfos de S’katir, imagina só! Quase fomos massacrados. Os encontramos nas entranhas de Rubram, mataram a porra do nosso mago! Felizmente saímos inteiros ou em partes!
– S’katir? Estavas atrás da erva Fizas? – pergunta Calvero.
– Nós procuramos e procuramos. Até tentamos encontrar a aldeia, mas aqueles putos, Calvero, além de elfos são necromantes. Certo que colocaram algum feitiço para não encontrarmos sua vila. Não tinha mais como ficar por lá e batemos em retirada. Chegamos a uma encosta, dali nos guiamos para o norte e felizmente conseguimos. – responde Ahmes.
– Hum, bem pensado. – Calvero está desinteressado e foca o assunto em algo melhor. – Agora vamos aos negócios. Onde está minha encomenda?
– Venha comigo.
Antes que ambos pudessem pegar a mercadoria um grito de desespero é ouvido na taberna. Taal olha para trás para ver a jovem serviçal sendo segurada a força por um dos homens. Ilma sobe e corre para ajudá-la enquanto Taal avança, mas é golpeado na cabeça por outro homem que acabou de acordar. Eles são levados como prisioneiros para fora. Ahmes percebe as orelhas do elfo. Ele se aproxima as presas desembainhando a espada.
– ELFO NOJENTO! ÉSCORIA DESTE MUNDO, VAI MORRER! – a espada de Ahmes estava prestes a cortar o pescoço de Taal quando uma cimitarra se entrepõe a ela.
– Não faras nada, Ahmes! – diz Calvero.
– Mas o que? Me deixe matá-lo! – irritado pede Ahmes.
– Eu conheço um bom serviçal quando vejo um. Este elfo, é forte, pode haver grandes trabalhos para ele. Vai valer uma boa grana! E essa cicatriz em seu rosto. – ele vira o rosto de Taal para olhar melhor a marca – Sim, vai valer uma boa grama. Minha palavra é a última. Ele vive!
– Elfo maldito!
Enquanto isso alguns homens de Calvero saem da taberna com Ilma e a serviçal. Taal as observa ambas com lágrimas nos olhos.
– Desculpe querido. – diz Ilma. – Ficamos preocupadas.
Calvero se aproxima das duas ele as analisa brevemente.
– Vai querer ficar com elas também? – pergunta Ahmes.
– Não tenho serventia para elas. Pode matá-las – diz Calvero
– Não ousem tocar nelas! – grita Taal em um acesso de fúria.
Calvero dá um soco com as costas das mãos no rosto do elfo, o deixando tonto.
– Escuta aqui seu pedaço de merda, a partir de agora tu me pertence. Vai responder apenas a mim, tu vai ser meu até te comprarem… – ameaça Calvero.
A espada de Ahmes atravessa a garganta de Ilma saindo do outro lado. O sangue escorre por entre seu corpo e ela tomba no chão.
-…vai dormir quando eu mandar, vai cagar quando eu mandar, vai falar quando eu mandar. Entendeu? – continua Calvero.
Taal observa o corpo de Ilma inerte e volta sua atenção para a serviçal enquanto Ahmes se aproxima dela.
– Calvero. – chama Ahmes – Receberei parte da recompensa pelo elfo, correto? – pergunta.
– Alguma vez eu não cumpri com a palavra? – pergunta Calvero.
– Haha.. apenas checando – diz Ahmes.
A serviçal, com lágrimas nos olhos, observa o elfo com a expressão de sempre: admirada e tímida. Ela sorri para o elfo em despedida. A espada de Ahmes corta sua garganta, o sangue escorre. Ela vai ao chão, estremece e morre. Taal está em lágrimas e começa a debater em vão.
– Ponham esse bebê chorão dentro da carruagem! Vamos!
Taal é preso com algemas de aço. Nada pode fazer. Antes de partir de Vris lembrou que naquele dia, fazia 10 anos que vivera ali.

STONE

Se Stone fosse um pouco menor poderia ser comparado com os ratos da masmorra em que estava. Não porque se sentia em estado degradante, mas os sujeitinhos não tinham medo de se aproximar dele. A cela em que ele se encontrava ficava no subsolo da bastilha. Era um lugar úmido e fedia a merda. O som das gotas caindo era irritante. Se Stone se concentrasse podia ouvir o som ecoando até encontrar uma forma rítmica entre elas.
Os passos vieram com o eco das gotas. Além dos passos, as chaves na cintura do guarda tilintavam.
– Como está seu humor hoje? – pergunta o guarda se aproximando com um prato de comida e água.
– Eu fiz dois novos amigos, essa é Judy e esse é Dave. – Stone aponta para os ratos.
– Talvez você precise de alguém mais racional, já está enlouquecendo. – o guarda põe a comida em uma abertura no chão própria para isso.
– Como está sua irmã, Marco. – pergunta o anão.
– Bem.. quer dizer, ela anda pensando em vir trabalhar aqui, sinceramente eu não acho uma boa ideia.
– Preocupado com nosso digníssimo, monsenhor? – Stone pega o prato e bebida e começa a comer.
– Eu não confio no velho Latus, acredita que ele já tentou me levar pra cama também?
– Você tá brincando? – pergunta Stone mordendo a comida. – E o que você fez pra se livrar dele.
– Disse que estava com herpes.
Um breve momento de silêncio e ambos começam a cair na gargalhada. Stone chega cuspir comida da boca.
– É sério – diz Marco – O monsenhor não chega a mais de 2 metros de distância de mim.
– E como está, Jan?
– A cabeça dele ainda dói, você o acertou em cheio.
– Não me julgue por isso.
Marco senta-se no chão em frente a cela.
– Me diga, como é sua vida? – pergunta.
– Minha vida?
– Sim, você é um ladrão, não é? Como é viver assim, roubando lugares, viajando. Como é a emoção disso tudo?
Stone larga o prato no chão e bebe um pouco de água da caneca.
– Bem, não posso dizer que é algo fácil, mas tem suas vantagens. Eu viajo para vários lugares porque não posso parar e correr o risco de ser pego como aconteceu aqui. Eu roubo porque sou bom nisso, fui treinado para isso. Parte do lucro eu gasto nas tabernas e quando possível ajudo quem eu posso.
– Então há um motivo além de simplesmente roubar e se esbaldar com isso? – Marco estava interessado no assunto, os olhos podiam brilhar em meio a escuridão daquela prisão imunda.
– Há ladrões e ladrões, Marco, alguns tem uma conduta mais louvável que a minha. Eu apenas faço o que acho certo.
– Você já faz mais que o monsenhor Latus. Aquele velho vive em luxuria nesta bastilha, paga quando há a necessidade de oferecer serviços, mas apenas porque se não fizer vai ser destituído de sua função. A maioria daqueles tesouros que ele guarda naquela maldita biblioteca custaram a vida de muitos homens, muitos amigos queridos. Fico pensando dia e noite se o que faço aqui realmente vale a pena.
– Ninguém é perfeito, mas nunca é tarde para se redimir e fazer as coisas valerem a pena.
Marco ri. Havia algo que surgiu daquela conversa, algo que ele não sentia a muito tempo. Um calor no peito, um arrepio na espinha, uma vontade de tomar uma atitude em relação a tudo aquilo.
– Sabe Stone, você tem razão. – Marco levanta-se para ir embora, deixando no chão em frente a cela, um molho de chaves.
Stone fica apático, não esperava essa reação do nobre guarda.
– Creio que com seu braço de anão vai conseguir alcançar – diz Marco, subindo as escadas para fora da prisão.
– Obrigado – diz Stone.

A sala onde era guardada os pertences dos presos era relativamente pequena. Havia estantes nos dois lados das paredes e uma mesa onde se encontrava uma garrafa que possuía uma bebida de cheiro estranho que Stone não se animou a beber. Pegou todo o seu equipamento, sorrindo como uma criança que ganha um brinquedo novo ao sentir seu martelo em mãos, arrumou-se e avançou para cima da bastilha. Despistando os soldados pelas sombras, Stone atravessa uma porta para ver uma cena improvável: Latus está parado em pé, de costas, com as calças abaixadas mijando. Ele havia entrado no banheiro. Aos virar-se, Latus se assusta, com uma das mãos tenta puxar as calças enquanto a outra lança uma rajada de energia acertando a parede e deixando uma marca nela. Stone corre para o corredor.
– GUARDAS! GUARDAS! – grita Latus.
A primeira coisa que se passa na cabeça do anão é procurar uma janela e saltar por ela, usar seu gancho, se necessário, e deslizar até o chão. A sua frente um grupo formado por quatro guardas surge e começa a correr em sua direção. Stone dobra no primeiro corredor que surge à sua direita e segue em fuga. À sua frente, uma porta dupla que ele abre usando toda sua força de anão. Vários serviçais estão assustados olhando para o anão que observa aquela enorme sala de jantar. A mesa, larga e farta, com frutas, pães e um porco assado, possui convidados de lados. Homens de aparência dúbia, que cheiravam mau e falavam de forma ríspida e cruel.
– Vejam o que temos aqui. Um anão gordinho, acho que dá pra substituir ele pelo porco! HAHAHAHA – gritou um dos homens se levantando da pesa puxando a cimitarra.
Stone retorna para o corredor. De um lado, soldados se aproximam cada vez mais rápidos, armados e pronto para atacar. Do outro lado, Marco surge com espada em punhos. Ele se aproxima de Stone e com fogo nos olhos diz:
– Eu te dou cobertura. Saia daqui.
Stone estende a mão e faz um sinal para Marco.
– Não, você fez sua parte. Infelizmente eu não consegui fugir. Me faça um favor garoto, vá viver seu sonho. Você me deu a liberdade e agora eu estou te propondo a sua. Isso aqui já acabou.
As mãos fechadas em torno do cabo da espada perderam a tensão. Marco estava pronto para defender Stone e ainda sim, obedeceu ao anão.
Não demorou muito para Stone ser cercado por um grupo de guardas em frente a sala de jantar. Latus logo surgiu.
– Parece que você é cheio de surpresas anão – diz – Não se preocupe, não vai voltar para cela, você morre aqui.
Latus junta as mãos de onde começa a surgir uma aura azul. No meio dessa junção, uma esfera de energia se forma, muito mais densa e sólida que antes. Os pelos de Stone se enrijecem. Latus está pronto para o golpe final.
– Espere! – uma voz vinda da cozinha grita.
O homem de barbas negras e cabelos negros com alguns dentes de prata se aproxima.
– Vejam homens, que surpresa – diz Calvero – eu achando que a porra dos pequeninos que serviriam de mascote, mas eu me enganei completamente. Você bem que podia vir conosco e ser meu mascote pessoal anão.
– De jeito nenhum, ele morre aqui! – diz Latus erguendo os braços pronto para lançar aquela esfera de energia em Stone.
– Que tal uma troca? – propõe Calvero.
Latus com os braços para cima olha para Calvero e para Stone. Lentamente a energia se dissipa. Ele baixa os braços, entrecruza os dedos com uma postura pronta para discutir os negócios. Stone apenas escuta.
– Não posso negar que em suas buscas me trouxe boas relíquias. O que teria para me oferecer em troca do anão?
Stone puxa o martelo de uma mão. Ele está furioso. Os guardas de Latus se preparam para defender o monsenhor.
– Eu prefiro morrer lutando do que ser a porra de uma moeda de troca!
Stone corre em direção a Latus, com martelo em mão e sangue nos olhos. Ele salta para acertar a cabeça do monsenhor que balança uma das mãos e um feixe de luz o empurra para os pés de Calvero, deixando-o desnorteado.
Calvero ri.
– Homens tragam-na aqui.
Dois homens de Calvero saem e brevemente retornam com um objeto entre panos.
– Consegui isso de um dos escravos a poucos dias. Tenho certeza que será um objeto de troca suficiente para você.
Calvero desenrola o objeto. Os olhos do monsenhor Latus quase saltam as órbitas de tamanho encanto. Podia jurar que jamais veria algo assim em toda a sua vida.
– Você sabe que não me interesso por essas merdas, não é? – diz Calvero – Meu negócio é outro e eu sei que este aqui vai valer um bom dinheiro. É uma troca justa não acha?
– Você tem ideia do que tem em mãos? – pergunta Latus se aproximando do objeto. Ele está prestes a babar pela boca a qualquer momento.
– Provavelmente algo muito raro.
– Mais que isso – diz Latus – Está é.. está é Flama, a espada dos Wylleth. Está em sua família a gerações.
– Então temos um acordo?
Latus pega a espada das mãos de Calvero.
– Podem levá-lo. Ele não vale nada perto de Flama.
Calvero ri.
– Levem-no para a carruagem homens! Sairemos amanhã pela manhã!


A CICATRIZ, A ESPADA E A MOEDA

Ninguém poderia previr que Chuck, Taal e Stone se encontrariam juntos na mesma carruagem que partiria pela manhã, ao porto mais próximo em viagem para o continente de Basaram.

O ciclo se quebra.
A espada é perdida.
O roubo falha.

E o exílio nunca fora pedido.

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