O LAGO DE CRISTAL
Embora ninguém soubesse, naquela noite, nenhuma gota de sangue fora derramada em toda Celosia. O continente suspirava livre da dor enquanto curava as feridas expostas em seu povo. Já passou quase um século desde que a guerra por minério havia começado. Nesse tempo, fortes caíram, regicidas nasceram e assim, os grandes reinos sucumbiam à crueldade das ambições até mesmo de seus iguais. O Caos estabelecera-se. Poucos povos, cujas terras nada tinham a oferecer, decidiram manter-se neutros e assim preservar seu recanto. Uma atitude nobre, porém pouco respeitada pelos irmãos da guerra. A ousadia ultrapassava limites, enquanto se tornava banal e a guerra era tratada nada mais que um simples acontecimento do cotidiano, ou seja, as pessoas estavam acostumadas com a guerra até que ela arrombasse suas portas, matasse sua família, depois de fazerem coisas horríveis, e queimasse seu lar. O dia a dia de Celosia. O continente corrompido.
Mas não naquela noite.
Naquela noite existia paz.
Mesmo que a falsa paz.
Disfarçada de acaso.
O Lago de Cristal refletia a pálida lua e as estrelas do céu como se fosse um espelho. O garoto admirava um gordo peixe que nadava na água, parecendo assim estar nos céus.
-Não vá cair na água. – disse a voz rouca, chamando a atenção do garoto.
Seu avô estava na beira de uma fogueira preparando a pesca do dia. O garoto aproximou-se, acelerando os passos para se juntar a ele. Quando sentou no grande tronco, o calor da fogueira o acometeu como se fosse os braços de sua mãe.
-O que achou do lago? – questionou o avô.
-Consigo ver o céu como se fosse um espelho. – respondeu.
-Não é atoa que é conhecido como Lago de Cristal. Felizmente uma das poucas áreas ocultas da região, onde a guerra não pôs seu dedo.
-Acha que essa guerra vai ter fim um dia, vovô?
-Enquanto houver ambição no coração de todas as raças sempre haverá guerra. – respondeu, pegando o primeiro peixe que estava ao ponto.
-Por que guerrear por pedras?
A faca parou a menos de um centímetro de cortar a cabeça do peixe, reluzindo as chamas da acolhedora fogueira como um sinal de alerta. O avô suspirou fazendo alguns fios de seu bigode grisalho balançar.
-A história que meus ancestrais contam – disse, fazendo o primeiro corte no peixe. – é que, mesmo em tempos remotos, a cobiça pelos minerais sobrepujou a fé em algumas divindades, afinal de contas, o que mais tem valor para o homem além de seus deuses? O ouro, a prata. A inveja foi tanta que eles começaram a intervir na vida de todos os seres, levando este mundo quase que a completa destruição. Isso irritou o Criador que decidido deu a eles o que mais desejavam.
-E seria? – perguntou o garoto, enquanto seu avô fatiava o peixe.
-Minérios. As ditas divindades foram aprisionadas em forma de pedras. Elas desejavam a cobiça dos homens e o Criador lhes concedeu. Eu já não lembro mais seus nomes, mas são as pedras mais belas que existem em nosso mundo. Algumas lendas dizem que essas pedras existem em lugares remotos desse mundo e que contem muitos poderes, dizem que juntas poderiam fazer um homem qualquer se tornar um deus e ascender aos céus para dimensões nunca antes vistas. Outras lendas dizem que devido a seu grande poder elas moldaram formas a este mundo tornando-as assim, nada mais que uma representação simbólica para coisas belas como o Lago de Cristal, por exemplo.
A história fascina o garoto, mesmo assim, ele baixa a cabeça, franzindo o cenho e dando de ombros.
– Mas o que isso tem haver com a escassez de minérios?
-Bem. – o avô preparava a resposta com cuidado – Dizem que a influencia das divindades sobre os seres dessa terra é forte o suficiente para fazê-los se odiarem entre si por outros tipos de minérios. É por isso que os homens apreciam o que é valioso, matando, traindo para conseguir o que querem.
-Enquanto Basaram?
-O que tem?
-Ouvi dizer que não a guerras por lá, nem escassez de minérios.
-Por isso não deve dar ouvidos a histórias de pescadores – disse o velho esboçando o maior sorriso sem dentes que o jovem vira. -Há muito tempo foram oferecidas alianças para reis do continente de Basaram. Isso provavelmente teria surtido um grande efeito em Celosia. Porém, uma congregação de reis, antes do progresso do continente, decidiu não se envolver. Por isso as conexões marítimas foram interrompidas, mas a quem diga que exista algum tipo de comércio ilegal circulando os mares. – o avô cortava o segundo peixe, fazendo pedaços saltarem.
-É verdade que não existem reis por lá? – a curiosidade do jovem deixava seu avô encantado. O velho esboçou mais um sorriso sem dentes e se alegrou em responder.
-Os reis de Basaram estão quase extintos. Alguns mantem-se firmes e acreditam ser a melhor forma de governar do que algum tipo de democracia. Anões, por exemplo, tão cedo não deixarão de ter um rei debaixo de suas montanhas. Bem o fazem, muito da democracia de Basaram não passa de uma grande mentira. Até onde sei, o poder ainda pertence a quem tem mais, quem pode comprar mais, e não a quem realmente é capaz de fazer algo. Mas como dizem: enquanto Celosia forjava armas, Basaram forjava progresso. É difícil não pensar que caso Celosia não estivesse em guerra, talvez pudesse abraçar um progresso parecido com Basaram.
O avô entregou ao garoto o prato com os peixes que ele havia fatiado para facilitar a digestão. Porém não pode deixar de notar que a cabeça dos peixes estava ali intacta. Então voltou a atenção para o Lago de Cristal e lembrou-se da leveza a qual o peixe nadava e observou as árvores em volta que balançavam suavemente a esmo, dada a leve brisa que ali tocara. Imaginou o peixe saltando da água, imponente ao ambiente que não lhe era permitido, circulando as árvores enquanto chegava tão alto nos céus que o perderia de vista. Pensou sobre as divindades, imaginou-se segurando cada uma das quatro pedras. Com elas poderia ascender aos céus e chegar a outras dimensões. Isso seria libertador, se eram tão poderosas quanto de fato seu avô dissera poderia por um fim a guerra, traria paz a este continente sofrido e… mas não. Logo se deu conta que tudo podia não ser mais que uma superstição que tolos pescadores contavam para impressionar os amigos. Achava mais fácil pular no lago e imaginar-se no céu. Desejou fazer isso. Porém, uma questão surgiu.
-Vovô, homens podem voar? – perguntou, mantendo-se fixado no Lago de Cristal.
O avô absorveu a pergunta enquanto pegava mais um peixe que estava ao ponto, preparando-o para o corte.
-Bem, qualquer um poderá lhe dizer que não. Mas seria uma grande mentira. Eu lhe garanto, já vi homens voarem tão bem quanto pássaros.
A fogueira estalou ao final da frase do avô. O garoto então jurou jamais precisar pular no Lago de Cristal para se imaginar nos céus. Decidira que tomaria o rumo de aventureiro e tomaria como objetivo encontrar as pedras ou provar sua farsa.
Mas não naquela noite.
Naquela noite existia paz.
No Lago de Cristal, onde a guerra ainda não tocara.

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