INTRODUÇÃO – PARTE I


Nesta introdução, que será dividida em duas partes, apresento a vocês os protagonistas das Crônicas do Exílio – A cicatriz, a espada e a moeda. Por mais que Crônicas narrem estórias distintas de personagens pertencentes ou não ao mesmo mundo, quero enfatizar que o protagonismo destes, apresentados aqui, serão a chave para todo o desenvolvimento de outros personagens presentes ao longo do livro. Divirtam-se.

Mike B. Dilelio

Chuck Wylleth

Quando o dia virava noite na floresta de Rubram, um jovem guerreiro de pele negra e uma espada ancestral, decide provar para quem ama que poderia ser forte e digno de um dia ser rei.
O Oeste do continente de Celosia pode ser uma região muito traiçoeira para aventureiros. Não pela guerra que segue por séculos a fio, mas a própria natureza se torna intimidadora, uma vez que a região foi condenada por ser amaldiçoada e sendo necessário total esquecimento. Infelizmente uma lição ignorada, principalmente por aqueles que querem provar algo a si mesmos. A guerra jamais chegara lá, pois nada havia para explorar. Os recursos a Oeste de Celosia nada mais eram que um mito, há quem diga, que a suposta existência de minérios nessa região, seja uma armadilha para alimentar as inimagináveis bestas que lá habitam. Quando o herdeiro de Charles Wylleth, pisou nas quebradiças folhas secas, ele sabia onde estava, desejava estar ali, e ali ele iria ascender como gostaria para se tornar forte o suficiente.

“Fique forte, estarei esperando.”

Essas palavras estavam consigo há muito tempo e o peso da espada de seu pai já estava ficando mais suportável. Porém, ainda não era o suficiente. Embora os passos de Chuck o levassem a um lugar sem rumo, a certeza era que um dia retornaria a Nova Ammenor e esposaria Eleonil. Faria jus ao nome Wylleth, provando assim seu valor, e um dia se tornaria rei. Algo lhe dizia que estava no lugar certo, mesmo que custasse sua morte.

A umidade da floresta percorria suas narinas e tinha um odor doce. Não era algo que estava acostumado. Chuck tinha certeza que o sol estava a pico quando entrara na floresta. Não havia passado muito tempo, porém, e estava percorrendo o caminho onde via nada mais que árvores.
Em florestas densas a noite cai mais rápido, Chuck sabia disso, mas em Rubram, as coisas eram diferentes. As árvores pareciam lhe acompanhar, fazendo Chuck lembrar-se do movimento das grandes cidades enquanto andava. Daquelas pessoas apressadas cruzando seu caminho ou discutindo seus problemas. É como se aquele lugar trouxesse a vida de outros, ou que levasse embora e, de forma impertinente, se apoderasse de sua essência.  Era assim que Chuck se sentia, como se a vida tivesse sendo extraída por alguma força, lentamente, sem dor, sem sofrimento, apenas uma leve enxaqueca e a sensação de ausência de si mesmo. A floresta de Rubram mostrava porque era temida. A ironia do momento trouxe um breve sorriso ao guerreiro.
Caminhou por Rubram por pelo menos duas horas, era o que achava. Estava tudo calmo até constatar o pior quando os pelos do seu braço enrijeceram, trazendo um calafrio agudo a sua espinha com a forte sensação de que algo fantasmagórico soprava sua nuca. Virou-se para conhecer seu inimigo, conhecer sua forma e saber com o que lidava, mas nada viu. Apenas deu-se conta do silêncio que a floresta fazia, enquanto observava sua prontidão. Por um breve momento achou que podia respirar em paz, mas lembrou-se que aquela não era uma floresta como qualquer outra. Quando recobrou a consciência de que estava ali, brevemente lembrou do motivo ao qual se colocava em tal posição, foi então que mais uma vez sentiu o sopro gélido em sua nuca. Sem que pudesse reagir, algo ou alguém lhe empurra com uma força surpreendente. A maciça árvore se aproxima de seu rosto, fazendo com que a pancada seja iminente.
As folhas deixam o chão macio. Uma coceira caminha pela testa de Chuck – um corte qualquer pelo impacto. Ele luta para manter os olhos abertos, quando nada mais vê que a copa das árvores se unindo em cone, como se observassem o pobre guerreiro caído.

“Eles estão olhando para mim…” pensou e logo apagou.

Sonhos de um futuro promissor lhe acometem, assim como sangue doente de alguém perturbado por um mal longínquo. A morte pálida, restringida, e a imagem de um laranjeiro, envelhecido com o tempo, onde, porém, pode-se ver uma única laranja pendurada, logo caindo e apodrecendo quando toca o chão.
Chuck desperta com um espasmo. Ao cair por si, descobre que a espada do seu pai não está mais ali com ele.

Taal

Após um juramento sagrado ser quebrado em meio a um tradicional ritual dos elfos de S’katir, um nobre elfo peregrino estava prestes a completar mais um ciclo de sua vida.
O verão não surpreendia os habitantes da aldeia de Vris. Nem tão pouco Taal, que dormia sobre uma cama de palha usando um leve lençol branco feito de algodão. A janela, sobre a cama, rangia ao entrar da suave brisa. De todos os verões aquele teria sido o mais agradável de todos para Taal, cujo último ano, do ciclo de 10, chegava ao fim. Faltava apenas alguns dias para ir para outra aldeia e assim, seguir o rumo que escolhera de peregrino. A cicatriz em sua bochecha, de cor vermelha e no formato de um dragão, fazia-o lembrar do tempo que viveu em sua terra natal, dos rituais que envolviam a tatuagem e laços de sangue matrimoniais. Ela doía de tempos em tempos, mas já havia se acostumado. Era quase como um alerta, aquela dor que podia facilmente ignorar.
Sobre uma cômoda no quarto, um velho grimório de magias e uma bolsa contendo algumas moedas de ouro. No cabide uma capa com um capuz que ele não espera em vestir.
Taal sai do seu quarto para um pequeno corredor rustico de portas trancadas, onde uma humilde serviçal reage timidamente ao elfo. Ela baixa seu rosto por respeito. Já ouviu histórias sobre Taal, nunca entendeu o significado e o fardo da cicatriz que o elfo carregara. Ela o admira e o teme.
– Olá. – ele é sempre gentil com ela.
A serviçal porém responde com um leve sorriso ao virar da cabeça. Taal gostava de como ela corava quando passava por ele. As vezes fazia questão de passar o mais próximo possível para ver ela nesse estado.
A taverna onde vivia há 9 anos e alguns meses não era algo digno da realeza, porém era aconchegante e familiar, algo que Taal não havia experimentado com tamanha intensidade por seus conterrâneos.
-Querido, que bom que você acordou. – a voz veio de trás do balcão. Era Ilma, a velha taverneira, com dentes pequenos e uma verruga no queixo tão grande quanto seu busto. – Vou preparar seu café, escolha uma mesa e sente-se.
Ilma traz para Taal um pão que ainda exala fumaça, um pires metálico com manteiga e uma chaleira rustica juntamente com uma caneca. Ela serve a caneca com café da chaleira.
– O que pretende fazer hoje, querido? – pergunta Ilma
– Acho que vou tirar o dia para meditar, antes talvez vá à capela. Sabe se Merin está lá hoje?
– Provavelmente, ontem bebeu feito um boi, tiveram que levar ele de volta para casa. Onde já se viu um padre beber tanto.
Taal riu. Conhecia Merin desde que chegou à aldeia de Vris. Fora ele que o introduzira as divindades locais e aos habitantes. Deu-lhe um teto, comida. Viu potencial no jovem elfo quando este lhe salvou a vida. Taal lembrava, tinha o costume de visitar capelas em lugares novos que ia em sua jornada. Quando chegou na capela de Vris foi recebido por um velho esquelético e doente que vomitava e defecava sangue. Não havia muita esperança para ele. Taal iniciou um tratamento à base de ervas que trouxera consigo de S’katir. Duas semanas depois o velho Merin estava tão jovem quanto ele. Ficou eternamente agradecido e insistiu a Ilma que arcaria com as despesas de Taal até quando ele fosse embora. No começo Ilma não gostou muito da ideia, mas o tempo fez com que todos de Vris conhecessem Taal e suas habilidades medicinais e passassem a gostar dele. Taal ajudou muitos ali, e passou a ser reconhecido como um símbolo de esperança em um lugar onde não havia nenhuma – uma vila de um reino mesquinho preocupado apenas com a guerra.
– Hoje cedo chegou um grupo de artistas na aldeia – disse Ilma. – Vieram puxando uma carroça, era lindo demais, você deveria ter visto. Atores interpretando palhaços, malabaristas com aquele corpinho de dar inveja. Aaah.. – os olhos brilhavam. – Se eu fosse alguns anos mais jovem. Sabe que uma vez me convidaram para participar de um grupo desses, hum? Eles pretendem fazer uma apresentação em seguida, porque não vai dar uma olhada, querido? É logo aqui em frente – sugere Ilma.
– Irei. Ilma, a senhora sabe me dizer se há alguma notícia da capital?
– Bem, querido, como das últimas vezes me agrado a dizer que não. Os aventureiros que aqui chegam apenas estão de passagem e pouco comentam sobre as incursões do rei Lane. Quando falam é apenas a mesma coisa – mudança de região, exploração, conquista em busca de minérios, aquelas coisas de sempre – felizmente Vris não tem muito a oferecer em relação é isso. Creio que ele sabe que afetar suas cidades e vilas daria um prejuízo maior e diminuiriam sua moral. Não há o que se preocupar.
Da mesa que Taal estava, dava para ver o lado de fora por uma janela, as crianças passavam correndo alegres em direção aos artistas. Aquele momento aqueceu o coração de Taal e trouxe uma leve preocupação.
– Assim, espero. Não gostaria de ver uma vila tão pacífica como Vris ser alvo na mão de um rei ambicioso.
– Está tudo bem, querido, de verdade – disse Ilma.
Taal consentiu com a cabeça. Pegou o pão quente. A manteiga derretia entrando pelos poros do pão. E aquele café, tão forte quanto qualquer outro que já havia provado. Assim que gostava. Terminou seu desjejum, levantou-se e saiu. Se soubesse que seria sua última refeição decente, teria aproveitado mais.

As pessoas passavam apressadas e com brilho nos olhos. Aquele ano a agricultura estava de vento em polpa; o arroz plantado, já havia secado o suficiente e aguardava a colheita, o café escuro, já estava pronto também. Era tudo que mantinha a aldeia de Vris, terra dos heróis sem nome, um lugar próspero e feliz. A festa proporcionada pelos Saltimbancos representava, de forma simbólica, uma recompensa por aqueles tempos. Embora humildes e sem muito conhecimento, sabiam apreciar uma boa arte.
Taal via o aglomerado de pessoas passando por ele. Todos humanos, em sua maioria, era uma aldeia de humanos afinal. Se lembrou como havia sido bem acolhido e resolveu se juntar a multidão, enquanto ela se aglomerava em volta dos Saltimbancos. As pessoas gentilmente cedem um espaço para Taal conforme ele abre caminho por elas.
No meio de tudo, a carroça aberta transformada em um singelo palco, com uma placa em dois postes escrita “O GRANDE GRUPO DE BALOO”, e em cima do palco um pequenino – seres menores que os anões, mas praticamente do mesmo tamanho dos goblins – interpreta um guerreiro, tendo sua armadura feita de um material flexível e precário, com espada e escudo de madeira. Um elfo representa com ele sendo um “temido” dragão branco, com um par de asas e máscara assustadoramente grande, ambos também de materiais precários. Atrás deles dois atores vestidos de camponeses cobertos de maquiagem branca; um humano, gordo e com a barba por fazer e uma elfa, magra, esguia. Enquanto Taal espera começar uma leve pressão em seu ombro o faz virar de supetão.
– Não creio que assustei você.
Taal sorri. O regente de Vris, Qarth era um homem carismático, alto, largo, com o pouco de seu cabelo branco e um cavanhaque que só fazia seu carisma aumentar.
– Nunca sabemos o que pode estar acontecendo, são tempos difíceis – diz Taal.
Eles se cumprimentam. Um aperto de mão de velhos amigos.
– É impressionante, você não mudou nada nos últimos anos, cada vez que nos encontramos é o mesmo de sempre – diz Qarth
– O que posso dizer, é algo que elfos tem, demoramos mais para envelhecer que vocês humanos. Não sei bem se isso é uma dádiva ou uma maldição na verdade.
– É por isso que fica em lugares diferentes a cada 10 anos?
Um sentimento de tristeza arrebata Taal e lembranças do passado vem à tona em sua mente. A cicatriz em seu rosto começa a coçar.
– Um dos motivos, sim – diz Taal.
– Este é o último ano que estará conosco, correto?
– Infelizmente.
– As pessoas aqui devem muito a você, Taal, um elfo com seus talentos é raro de se ver, bem, qualquer raça com talentos como o seus. As pessoas desse vilarejo ficariam felizes se você ficasse.
– Eu ajudei como eu pude, elas devem tudo isso a você. Você que os protegeu e evitou que a guerra chegasse até aqui. É graças a você, Qarth, que as crianças daqui podem ter um futuro. Em anos de viagem eu jamais vi algo como Vris, a comunidade trabalha junta para fazer as coisas funcionarem, isso só foi possível por que você olhou por eles. O mundo precisa de mais humanos como você.
Qarth vira o rosto com meio sorriso e suas bochechas começam a corar enquanto seus olhos começam a ficar úmidos.
– Que merda – diz Qarth – você está me deixando constrangido.
A cena da peça estava ficando mais divertida. O pequenino como guerreiro tentava demonstrar-se maior que o dragão. Em sua ousadia “atacava-o” sem misericórdia. Toda vez que acertava um golpe, os atores em roupas de camponeses lançavam um grito de vitória e toda vez que errava eles ficavam com dó e medo. A plateia vociferava conforme o pequenino ia executando sua ação. Por fim ele se sacrifica entrando na boca do mesmo, e cravando a espada no céu da boca do dragão. Os atores vestidos de camponeses lamentam a morte do pequenino, porém o corpo do dragão move-se e o pequenino sai da parte de trás do dragão. Os camponeses abraçam e erguem o pequenino tampando o nariz pelo mal cheiro.
A plateia aplaude, chora de rir. Taal e Qarth estão entusiasmados. Os atores também. O pequenino, porém, comemora menos que todos ali. Por estar acima dos ombros dos atores ele avista algo ao longe que tira sua alegria. Ele chama a atenção do homem e da elfa e aponta para onde vê. Logo todos se viram para contemplar e matar o sorriso e o brilho em seus olhares. O silêncio é substituído por lamúria e gemidos de dor. Um grupo, consideravelmente grande de soldados, todos humanos, se aproxima em fila. Estavam sujos, machucados, mancando fediam a morte. A guerra de Celosia trazia mais vítimas. Nada no mundo poderia recuperar aqueles homens do dano psicológico que sofreram. Taal, no meio das pessoas, apenas observava.
Um homem chamado Ahmes, usando apenas uma cota de malha, com barbas longas, ferido com um corte na cabeça e um pano velho tapando um dos olhos, onde se pode ver sangue e infecção escorrendo, toma a dianteira dos soldados e para na frente da multidão. Seu único olho arregalado observa a todos assustado.
Qarth se aproxima as presas.
– Pelo criador homem – diz Qarth, assustado com os homens. – O que lhe aconteceu?
Ahmes, ferido fixa o único olho no rosto de Qarth, por um tempo, analisando-o e logo desabando no choro.
– Estamos com fome.. sede.. estávamos.. morrendo.. – ele tenta, mas não consegue seguir. A pressão psicológica que sofrera o abalou completamente.
– Ilma! – chamou Qarth. Ilma estava, com a serviçal, em frente de sua taverna observando a situação. – Providencie água, comida e lençóis para estes homens. Agora! – Ilma acenou que sim com a cabeça e puxou a serviçal para dentro da taverna.
Se uma coisa que Taal aprendeu em sua vida é o fato reconhecer lugares estranhos antes de explorá-los. O mesmo valia para pessoas. Taal ocultou-se com seu capuz na multidão. Fez um gesto sereno com as mãos, um feitiço simples, mas bastante eficaz que detectaria se aqueles homens estavam falando a verdade ou não. Taal sentiu um aperto no peito, aqueles homens realmente haviam sofrido um abalo psicológico grande, vinham de uma intensa batalha, o luto era algo que estava presente no consciente de cada um deles. Havia dor e lamuria, mas não a desesperança. Tinham esperança, um coração cheio de esperança. Não tinha motivos para desconfiar que não estivessem dizendo a verdade.
– Não foi nossa culpa.. estávamos apenas nos abrigando nas cavernas de Crosz – continua o homem entre lágrimas e soluços. – E o elfos, os elfos nos atacaram.. queríamos apenas repousar e voltar para nossos… filhos.
Crosz era um nome familiar, até mesmo para Taal.
Ahmes então, entre a multidão de pessoas, percebe a elfa no grupo de saltimbancos. Sua expressão muda, ele se consome em medo e desespero.
– Foram vocês! Elfos nojentos, fiquem longe mim! Vocês nos atacaram. Vocês não tem coração, acham que sua vida vale mais que a de um humano simplesmente por viverem mais, que direito vocês têm?!
O elfo que estava com a roupa de dragão, levanta-se do chão.
– Como ousa acusar todos os elfos pelo ataque que sofreram – diz, tirando as vestes pesadas que o transformavam em um dragão.
Ahmes se encolhe ao ouvir a defesa do elfo. Ele então percebe uma marca na bochecha do ator.
– VOCÊ É UM DELES! – acusa o homem. – Os elfos que nos atacaram tinham marcas iguais as suas! – O medo e o desespero dão lugar a ira e o ódio. – Os putos dos elfos de S’katir. Doutrinadores, tentam espalhar seu ritual sangrento. Marginalizados por deuses que trazem apenas a morte. VOCÊS são a escória de Celosia e precisam ser esmagados junto com seus deuses como baratas!
A multidão discute assombrada. Taal, aprumado com sua capa e capuz, está surpreso por saber que um dos atores também é de S’katir.
– Você culpa nossa cultura pelos males da guerra. Pelo que bem me lembro, a caverna de Crosz pertence aos habitantes de S’katir. Foi feito um pacto, anos antes, para que ninguém tanto do Sul ou do Norte se aproximasse da região e os elfos de lá manter-iam-se assim neutros! – defende o ator elfo.
– Ele fala com blasfêmia! Ele defende seu povo sanguinário e assassino! Você diz “nossa cultura”, você diz “pacto”. Veja o que sua cultura imunda fez conosco. Por acaso me engano ao dizer que os elfos de S’katir são conhecidos pelos homens como necromantes? – Ahmes empunha um discurso persuasivo.
A multidão vocifera ainda mais. Alguns até parecem concordar. Taal iria interfir, mas é interrompido pela jovem atriz.
– Kellam está certo! – a singela e pura voz, antes não muito ouvida, chama a atenção de todos. – Até mesmo aqueles não envolvidos na guerra sabem do acordo com S’katir. Sim, eles podem ser necromantes e sim, seus rituais podem não ser os mais ortodoxos, mas os elfos de S’katir jamais fariam algo tão ilógico como atacar soldados para quebrar o pacto. A menos que vocês estivessem atrás de algo e não a nada em S’katir, além… – Ela reflete por um tempo – Fizaz, vocês estavam atrás da erva Fizaz.
As mãos de Taal começaram a suar, deveria intervir ou nada de bom sairia dali. Queria por um basta naquela situação. Antes que pudesse fazer qualquer coisa. Um pequeno par de mãos seguram Taal. Ele olha para baixo e vê a serviçal o puxando.
– Senhor Taal, por favor. Venha comigo.
Era primeira vez que ouvira ela pronunciar uma frase tão longa e tão direta para ele. A atriz elfa continuava.
– Seria bom não seria? A utilidade da erva para fins de guerra.
Ahmes fica sem palavras. A expressão de medo e terror retornam ao seu rosto. Sua única solução é voltar aos choros e soluços se abraçando a Qarth.
– Acalme-se. – diz Qarth. – Vamos achar uma solução, enquanto isso você e seus homens po… – Qarth engole suas palavras.
Qarth vê, ante si, além de falsas lágrimas e a infecção de um olho cego, um sorriso macabro e perturbador. Ahmes, havia perfurado seu coração com uma lâmina escondida. Qarth vai ao chão, se contorce brevemente e morre.
– Tomem a vila, matem quem for preciso e enforquem os atores – ordena, Ahmes enquanto ri sadicamente.

STONE

As montanhas podem ser o destino de muitos anões ao longo de suas vidas. Alguns nunca deixam de sair de dentro delas, seja por conforto ou cobiça. O elo que liga um anão a uma montanha tem tanto haver com fidelidade quanto com sobrevivência, devido a segurança que elas propõem. Porém, este anão, decide ir além da tradição de sua raça.
Não existia informação que o carisma de Stone, treinado nas Terras Altas que cercavam a cidade de Rogueburry, não conseguiria. E assim, averiguado como verdadeiro, de um tolo viajante bêbado em uma taverna na estrada, que nem ao menos se lembrara do próprio nome, apenas indicando para ele direções duvidosas, a bastilha resplandecia sobre a prata lua. Não era uma bastilha real. Porém, o viajante lhe garantira que muitos tesouros se ocultavam dentro das paredes de pedra do local, e pela bastilha se encontrar em um lugar isolado em Celosia, ninguém suspeitaria que algo de valor realmente estivesse escondido ante aquelas paredes. Guiado por essa lógica, Stone, decidiu arriscar, não teria nada a perder. Amarrou o cabelo e a barba com uma corda fina, verificou se seu martelo de uma mão e seu gancho estavam na cintura e começou a observar.
Dois homens guardavam a entrada da bastilha. Estavam armados de lanças e assim como quase todos que conhecera em sua vida, menos alguns pequeninos das pradarias e seus 20 irmãos, ele era mais alto, obviamente, era um anão afinal, poderia dar conta!
Seu ego era prudente, assim como suas habilidades quando não estava bêbado, mas não sabia o que ia encontrar dentro da bastilha, iria evitar o combate por ora. Era assim que ele era.
Aproveitou as sombras de algumas árvores e contornou a bastilha. Não havia ninguém na parte de trás além de insetos que ficavam zunindo pelas suas orelhas. Stone achou melhor colocar em prática o que havia treinado para vida que escolhera. Não tinha entradas na parte de trás, a não ser as janelas que ficavam na parte central de cada uma das torres. Stone estalou os dedos, dobrou os joelhos, que estalaram naturalmente, e saltou usando o gancho para de prender. No terceiro salto cravou o gancho em uma fenda na parede. O gancho não ficou completamente preso, estava quase se soltando. Recobrou o ar e deu mais um salto, fazendo mais força que antes alcançando finalmente a janela, e então entrou.
A primeira lição de um ladrão é ser furtivo. Stone sabia que estava em desvantagem por não conhecer o território, mas a escuridão da sala que se encontrava equilibrava as coisas. Na verdade, havia muitas coisas em Stone que equilibravam as coisas ou dariam vantagens, coisas que um simples ladrão não tinha a sua disposição. Stone era um anão parrudo, sim, mas, podia ocultar-se em lugares que um homem ou até mesmo um pequenino não poderia. Havia jeitos de se esconder nas sombras e passar despercebido, Stone era proficiente nisso. Movia-se em silêncio.
Ele consegue identificar alguns móveis na escuridão. Percebeu que não havia ninguém lá e procurou uma porta. Havia uma em sua frente, dispersando um pouco de luz do outro lado por entre a soleira. Aproximou-se da fechadura, tentou abrir de forma natural e não obteve sucesso, felizmente estava preparado para tudo. Trazia consigo um kit de ferramentas para abrir fechaduras. Kit básico que todo o ladrão deve levar. Demorou menos de 1 minuto com as ferramentas certas e o clique soou como uma bela nota musical para o anão.
A bastilha era um lugar simples, envelhecida pelo tempo com paredes que podiam contar todos os tipos de histórias se falassem. Os corredores, com rústicas paredes de pedra, estavam iluminados por tochas. Eram relativamente largos e não apresentavam um bom ponto estratégico para um ladrão, sem levar em conta que Stone não sabia exatamente onde ficava o lugar onde se guardavam os tesouros. Decidiu investigar como pode.

Não havia muitos guardas naquela noite. Começou a questionar se o bêbado da estrada não estava lhe passando a perna e querendo ver o anão passar por maus lençóis.

“Se fica u dia intero nu trabaio.. pra pude compra um pouco de cervja.. mas ó.. seu Stone.. se eu fosse rico mandav u mundo a merrrda e se eu tivesse um expada.. metia mão nu oro da bastilha du velhu Latus!”

Diria aquele bêbado na noite anterior. Também estava bêbado, Stone adora uma farra em tabernas distintas por entre cidades e vilarejos que passava. Depois das três era o melhor horário, a maioria das pessoas estava bêbada e ninguém mantinha o equilíbrio e não se distinguia que língua mais falavam, apenas sabia-se que não era tão boa quanto de Stone, que por entre uma mesa e outra,  enquanto afanava bolsas com moedas, enganava os bêbados com suas falácias. Algumas vezes lucrava, outras dava azar. Sempre que alguém comentava com ele sobre algum tesouro em algum lugar, mesmo que bêbado, Stone dava uma atenção maior. Uma coisa aprendeu: sempre há um pingo de verdade por entre o enrolar da pinga.
Foi ao finalizar este pensamento que Stone chegou a uma porta aberta. Não pode deixar de perceber que alguém estava conversando do outro lado. Aproximou-se escorado na parede, ergueu sua orelha e se pôs a escutar.
– Pelos deuses! O velho Latus não sossega.
– Espero ser tão vigoroso quanto ele ao chegar nessa idade.
– Ele trepa com qualquer coisa.
– Deve ser aquele bendito chá.
– Chá? Do que você tá falando?
– Conhece o guarda da masmorra, aquele gordinho?
– O filho dos Grees?
– Este. Ajudou descarregar uma carroça cheia de ervas para chá outro dia. O próprio Latus pediu para que fosse levado para o depósito ao lado do estábulo. Deu um punhado de carne para o gordo como pagamento a fim de manter ele com a boca fechada.
Eles riram da ironia.
– E quem busca as ervas?
– Ele paga um garoto que aparece aqui vez ou outra. A família dele é pobre, o velho Latus ajuda dando serviço. Pobre coitado, arriscando a vida em cima de uma montanha para pegar ervas para um velho tarado.
– Mas eu ainda não entendi, o que tem demais nessas ervas?
– Pelo que sei elas são especiais e colhidas na Montanha da Tempestade. Servem para revigorar, dizem que a estática na montanha causa esse efeito nessas plantas específicas. Por isso Latus tem sempre andado disposto por aí. E se as ervas não tivessem tanta valia ele não teria colocado mais de um cadeado na porta do estabulo.
– Isso é mania.
– Como assim mania?
– Ele costuma a colocar mais de um cadeado em portas.
– Onde mais?
– Na biblioteca.
– Por que alguém colocaria mais de um cadeado em uma biblioteca?
– Sei lá. Deve ter algo de valor para o velho Latus querer manter aquele lugar tão bem fechado.

“Algo de valor”


A orelha empinada de Stone ouriçou. Chegou no momento certo da conversa para saber onde deveria ir.
– Não é você que guarda aquela porta? O que está fazendo aqui?
– Já estou voltando, só vim pegar algo para comer – disse o guarda levantando-se da mesa. – Acha que consegue entrar no depósito e pegar algumas ervas?
– Posso tentar. O que eu ganho com isso?
– Faço teu turno por três dias.
– Fechado.
Apertaram as mãos e o guarda saiu. Stone já estava oculto em um canto de sombras, para evitar que o guarda não o visse. O guarda usava uma roupa simples de couro e carregava uma espada na cintura. Stone foi atrás dele, oculto e imperceptível como um rato nas sombras, mas Stone não era um maldito rato, não, era um ladrão, um ladrão que por instinto, e apenas o instinto de um anão treinado por habilidosos ladrões, sabia que estava no caminho certo para um grande tesouro.
O guarda parou em frente à porta dupla da biblioteca, e também seu único acesso. Stone estava oculto em uma das esquinas da grande bastilha, deu uma espiada e pode constatar que a porta possuía duas fechaduras simples (facilmente arrombáveis com seu kit básico de ladrão) e uma diferente das outras, pouco ornamentada, porém relativamente difícil de abri-la, como logo constatou pela sua experiência – cadeados ornamentados, sempre havia uma chave especial que o destrancasse e não havia um que depois de abertos não dessem acesso a bons tesouros. Agora só precisava encontrar a chave que abrisse aquele cadeado e mais uma vez, pela experiência, sabia onde procurar.

No alto da bastilha, em um de seus muitos quartos abriga o monsenhor Latus. A porta aonde Stone chega, não remete a grandiosidade e se equipara ao resto de todo o lugar, velho, puído pelo tempo, porém, ao abri-la o contraste é tão grande que leva a crer, para Stone, que aquele lugar realmente guarda tesouros secretos. Não havia nada dentro do quarto do monsenhor Latus que não houvesse algum valor: pequenas mesas de mármore cuidadosamente tratado e sobre elas jarras contendo o que provavelmente seria algum vinho caro, o tapete era tão macio quanto as campinas que as Terras Altas de onde Stone vira e era perfeito para um ladrão pisar. Havia arte também, os mais belos quadros pintados de forma a quase retratar a visão do olho nu. Em um deles, um senhor velho e magricelo posava, ostentando diversos anéis que provavelmente eram pesados e uma corrente dourada onde podíamos ver uma chave como pingente. Na cama um sujeito afunda-se, junto com um rapaz muito mais novo que ele, ambos nus com um leve lençol por cima do corpo. Era Latus, e Stone pode constatar que era também aquele sujeito do quadro. Havia um criado-mudo ao lado, com todos aqueles anéis pesados. Porém, obviamente, a corrente estava no pescoço de Latus. Hora de colocar aquele dom a prova. Pegar a corrente, chegar à biblioteca, apagar o guarda, abrir o cadeado, roubar tesouros e se embebedar na taverna mais próxima, depois repetir, repetir e repetir. Stone aproximou-se da cama. Pendurou-se no alto da grande cabeceira deitando seu corpo peludo sobre ela. Esticou sua mão parruda até o pescoço do velho Latus que dormia como um bebe balbuciando aquele bafo de um homem de 85 anos. Pensou por um minuto como aquele jovem conseguiria beija-lo. Stone tocou com a ponta dos dedos a corrente. Teria que tentar puxa-la de alguma maneira. Para sua sorte, Latus revirou-se para o lado, Stone assustou-se por um breve momento, ficando em pé com as pontas dos dedos, mas aproveitou e arquejou a corrente para o alto, fazendo com que no momento que Latus virasse a cabeça ele pudesse puxa-la. A chave tinha os mesmos ornamentos do cadeado e a mesma cor. Colocou a corrente em seu pescoço e saiu

O guarda segurava sua postura com tédio expressivo. Talvez quisesse voltar a se sentar com o outro guarda para conversar coisas que não deveriam. Bocejou como um urso, e percebeu algo inusitado: uma moeda de outro reluzia sob as chamas das tochas.
– Vejam só – diz o guarda
– Como veio parar aqui? – disse.
– Não foi difícil, apenas escalei uma das torres – responde Stone
O guarda dá um pulo para trás.
– O que você está..
Stone salta, ficando à altura do guarda, descendo seu martelo de uma mão na cabeça dele. O guarda não teve tempo de reagir, apenas sentiu uma forte pressão na cabeça e desmaiou. Para Stone usar um martelo era mais vantajoso que usar uma adaga. Ele pode apenas apagar alguém com um golpe bem dado ou então matar a pessoa sem fazer muita sujeira com sangue.

O som metálico confirma que a fechadura abriu. Stone levanta o metal que prende a tranca e abre a porta dupla.
É enorme. Não, quase que colossal para um anão que facilmente se lembraria da grandiosidade de uma montanha. O prateado lunar invade galanteando-se ante a poeira dançante que emana dos velhos livros e estantes altas.  Ali, contém toda a história de Celosia, cada fragmento, cada grande herói ou ser maligno que ousou uma vez dominar o continente. Quase todas as questões podiam ser respondidas, quase todas. Isso fez com que Stone, que ficasse de olhos arregalados e tivesse um arrepio na espinha.

Em uma das sessões da livraria parecia ser quase um museu. Dentro de aquários havia realmente o que Stone buscava: em um, uma espada com pedras preciosas, em outro uma coroa dourada quebrada. Porém, um reflexo em um desses aquários lhe chama a atenção: em um altar uma máscara feita de platina, o minério mais valioso dos dois continentes, descansa. Ela tem feições femininas, é ornamentada e possui várias pedras. Novamente, Stone fica perplexo como antes, talvez até mais dada à ambição do ladrão. Ele recua um pouco pela surpresa que fica e tropeça em um grosso livro no chão, fazendo um feixe de luz azul cruzar por ele e destruindo o estande onde havia a máscara.
– Há algum tempo que não vejo um anão com tanta sorte.
Latus estava usando um roupão quando pegou Stone no flagra.
– Me admira ter coragem para entrar aqui.
Uma aura surge em volta das mãos de Latus que as junta criando uma esfera de energia azul. Ele dispara. Stone, recua, salta contra uma estante de livros ricochetando de volta desviando de mais uma esfera de energia azul que acerta a estante derrubando vários livros com o impacto. Ele rola no chão, pega a máscara e corre em direção a saída. Ele saltaria pela janela aberta em frente a porta, usaria o gancho para escorregar pela parede e então liberdade, frustrante liberdade de mãos vazias, mas ainda sim, preferia viver e ter outras oportunidades para roubar do que morrer e jamais sentir o peso de um tesouro em mãos. Faltava pouco, muito pouco, e tudo foi por água abaixo quando uma última esfera de energia atinge suas costas em fuga. O impacto foi grande o suficiente para o anão bater a cabeça no chão e desmaiar.

Stone sonha com o mar. O resplendor de um próspero futuro tão grande quanto o próprio oceano que se recolhe perante o anão. Sua existência se torna obsoleta quando o mar recuado revela milhares de corpos, todos virados de barriga para cima sorrindo maleficamente. Logo os corpos começam a cuspir moedas de ouro.

“O luxo é um requinte onde escolhas se tornam difíceis, você escolheu um caminho perpétuo por nós e com nós deve estar.” Eles dizem em uníssono.

Uma gigante tsunami se aproxima e Stone não consegue se mover. Ela o atinge, ele flutua em uma paz sincera. Ao longe, Stone observa um laranjeiro submerso com uma única laranja que logo se desprende, apodrecendo cada vez que se aproxima da superfície.

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