O meu James Dean.

Certa vez escrevi um conto que se chama “James Dean, o único”. Nele, o personagem, cujo nome é dado apenas pela sonoridade, não possuindo nenhuma semelhança com o ícone cultural dos cinemas, entra em sua casa as pressas em busca de seus vícios favoritos: cafés e cigarros, pois ele havia profetizado o fim de seu mundo – uma alusão a dados momentos onde nos cercamos de uma realidade mórbida sobre o fim da vida.

Vejam, de uns dias para cá essas questões me vem a tona, sempre antes de dormir. Fico divagando, como James Dean, sobre o fim da vida e logo quando não vejo saídas busco espairecer (para não enlouquecer) em pequenas coisas que me estimulam satisfação e me levam para longe desse pensamento: eu leio, eu jogo, eu assisto vídeos aleatórios ou entro para dentro das pinturas de Bob Ross – o mundo nunca mereceu uma pessoa como Bob Ross. James Dean então decide relaxar tomando um morno banho em sua banheira. Nesses momentos percebe as pequenas coisas ao seu redor que se passam despercebidas por motivos naturais, ninguém foca no que é mundano e banal, mas nesse caso, em minha percepção, James Dean queria através de sua mais profunda revelação imaginar-se como essas coisas poderiam deixar de existir. Tudo no momento que entrara na banheira se tornou mais alto em sua cabeça, tanto os barulhos internos que provocava ao entrar na banheira, como os cachorros que latiam do lado de fora. James Dean talvez estivesse querendo se livrar desses pensamentos de forma inconsciente. Ele repara em certas ironias e então adormece. Os sonhos nos mostram tudo que a vida em si não nos proporciona, nos mostra o melhor de nós e o pior de nós, os medos, as raivas, os segredos e os desejos, se sonhar fosse crime, a humanidade estaria condenada. Não há controle ao sonhar e embora haja muito debate entre ciência e religião sobre o que ele se trata, creio que Freud estava correto ao dizer que ele nos mostra uma busca aos desejos reprimidos. Os sonhos de James Dean são a forma de fuga dele desses pensamentos recentes. Em dado momento ele sonha com Faye Dunaway, ela era a mesma do filme Bonnie and Clyde (1967) (eu amo esse filme). Ela aparece nua para ele, citando palavras do filme o convidando para ir embora com ela. Ela se aproxima e a sensação que ele tem é a de flutuar, antes ele tentou voar e não conseguiu pateticamente, mas aqui, estava tudo bem, ele tinha o que queria, o detalhe, era que ele estava se afogando na banheira.

Não vou contar tudo o que acontece. Deixarei ele abaixo para quem vier interessar a leitura. James Dean, o verdadeiro, jamais conheceu Faye Dunaway. Ele veio a falecer em 1955 e nessa época ela teria apenas 14 anos de idade. Coisas assim porém me fazem pensar em grandes e duras coincidências que a vida provoca e utiliza nossa mente como ferramente para tal. Quando escrevi esse conto, num pequeno caderno vermelho que escolhera a dedo para escrever contos e afins, em 2015, 2014 talvez, eu jamais pensaria que me encontraria em um momento tão parecido que James Dean. Essa ironia me deixa assustado e encantado ao mesmo tempo. A vida pode ser dura, mas ela te surpreende de formas imprevisíveis, boas ou ruins.

Talvez o resultado final da busca de James Dean tenha sido a melhor para ele e apenas ele saberá disso. Criamos personagens que se identificam conosco, mas são eles que guiam os autores por entre as palavras, nunca o contrário. Talvez assistir aos filmes de James Dean eu encontre mais coincidências, mais ironias, talvez não. Nunca saberemos afinal quando a vida te surpreende com algo. A única certeza que temos é a morte. O que importa é o que você faz durante esse ciclo que percorre e cada ação sua é um fenômeno incrível que pode ser bom para você e para outras pessoas. Temos pouco tempo e não importa como é o fim, mas sim o que você faz no tempo que está aqui. Seja você, seja único.


James Dean, o único

James Dean entrou em casa correndo. Sentou-se à mesa e pôs as duas mãos na cabeça. Profetizou o fim do mundo, do seu mundo. Quebrou o silêncio e jogou um punhado de água na cara com as duas mãos que havia colocado na cabeça. Buscou por cigarros e não encontrou. Buscou por café e não encontrou.
Profetizou o fim do mundo e estava sem seus vícios.
Aqueceu a água e encheu a banheira. Deitou-se na morna água e por um momento sentiu-se em paz.
Paz, sem seus vícios. Desejou ao menos o cigarro ali consigo. Paz, com cigarros…
Apenas ouvia o barulho das pequenas ondas na água. E cães que latiam ao longe.
James Dean quis afundar. Teve receio.
Apenas teve receio.
Engoliu a saliva. Percebeu a umidade de sua boca e comparou com a umidade do seu corpo.
Achou estranho como era estranho pensar coisas estranhas assim.
Achou estranho deitar na cama e chorar quando as rugas do seus dedos mal saíram.
James Dean sonhou e as rugas quase desaparecendo
Sonhou com a grama.
Sonhou com o sol.
Sonhou com cigarros e cafés.
Sonhou com Faye Dunaway nua, massageando seu pau. A Faye Dunaway de “Bonnie and Clyde” ou de “Chinatown”.
Sonhou também que podia voar, mas que não conseguia. Ficava pulando que nem uma criança querendo pegar um balão que escapou.
Sonhou que queria gritar, mas que estava no meio do universo e lá o som não se propaga.
Se viu então confuso porque estava só. E a razão disso era porque não tinha ninguém ali para apontar o dedo e porque não podia assobiar.
Era bom não ter ninguém para apontar o dedo.
Mas era bom assobiar.
Gostava de assobiar.
James Dean então fechou os olhos e os apertou. Desejou sumir DO nada.
Ouviu Faye Dunaway sussurrar em seu ouvido: “O que você faria se algum milagre acontecesse e pudéssemos sair daqui amanhã pela manhã e começar tudo de novo? Sem registros e ninguém atrás de nós, huh?”
Sentia a respiração dela, quente em sua orelha. Podia até sentir seu cheiro também.
Ele nunca viu Faye Dunaway pessoalmente.
Sentiu o bico de seus seios desnudos lhe tocarem o braço.
Um toque leve. Sútil.
Sentiu-se flutuar.
Sentiu que todo o corpo, até os pelos, se perdiam pela falta da gravidade.
Paz?
Apertou os dentes. Os pulmões também apertaram.
Tentou gritar e os pulmões apertaram ainda mais.
Lembrou da umidade de sua boca.

James Dean se afogava.

Quando abriu os olhos pensou em saltar. Isso mesmo, literalmente saltar. Seu tronco foi impulsionado para frente, enquanto seu trasseiro tocava a superfície de porcelana.
Colocou as mãos nas beiradas e cuspiu de seus pulmões água morna sobre a água fria.
Entrou em pânico e pulou para fora da banheira.
Seu corpo molhado tocava a segurança do chão frio.
Estava com mais rugas que nunca.
E os cães latiam ao longe.
Estava com os olhos arregalados, ofegando. O pânico começou a passar e percebeu o que aconteceu.
Tentou gritar e dessa vez conseguiu.
Caiu em si.
E os cães silenciaram.
O lúgubre silêncio fez James Dean entender o que era morrer.
Sabia que morrer era paz.
Sabia que morrer era estar pleno em um vazio longínquo, onde desejos profundos se tornam parte de toda essência que um dia foi ébria.
James Dean uma vez sentiu-se pequeno. Não mais.
Tudo passou.
Podia alcançar o que um dia não lhe permitiam.
Antes pequeno, ergueu-se agora como homem.
Pouco importava se sabiam.
Trouxe em desespero a dúbia certeza da confiança.
E isso era bom.
James Dean, o único.
Esvaziou a banheira.
Aqueceu a água e encheu a banheira. Deitou-se na morna água e por um momento, sentiu-se em paz.
James Dean fechou os olhos.
Os dedos já enrugados agora tomariam novas formas.

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