Uma coisa que me deixava em dúvida era que eu já não sabia se estava acostumado com o cheiro do cachimbo ou dos mortos. Da última vez que tivemos um funeral aqui, os parentes do morto reclamaram. Imagine você, tendo que lidar com parentes zangados de um morto por que seu cadáver estava com fedor a fumo? Que culpa eu tenho se essa merda se espalha que nem praga.
Lembro que Maria vive pedindo para parar com esse vício. Ela tem 7 anos e consegue ser extremamente incisiva as vezes.
Não vejo como vício, o que qualquer viciado diria, apesar de perceber que a coloração do bigode está mudando. Vejo como um ritual: enquanto estou embalsamando os mortos e Maria ao meu lado, estou também fumando, até a língua arder e a boca começar a salivar.
Os melhores fumos eu comprava quando morava em San Angelo, no Texas, e foi lá que eu conheci a mãe de Maria. Lucile era a mais bela, mais nobre mulher que um homem como eu poderia pedir. Viajamos para Ohio, e assumimos os negócios funerários do pai dela em Springfield. Foram bons anos. Entre um corpo e outro eramos um casal feliz. Ela até compartilhava o cachimbo comigo vez ou outra. Logo Maria nasceu. Lucile não aguentou o parto. Me dividido entre o mundo que tinha e o mundo que ela me deixara. De toda forma, aquele negócio ligava os dois.
Quando Lucile
faleceu tudo que eu podia fazer era deixar ela como eu sempre vira.
Ela merecia essa atenção de mim, eu precisava fazer jus ao
trabalho.
“Não é porque estão mortos que você precisa ser
grosseiro desse jeito”. “Cuidado com esse cachimbo”. Lucile
dizia. Eu era um grosseirão, não tinha tato com as agulhas e com a
dureza do frio e morto corpo.
No dia que eu
embalsamei o corpo de minha mulher o fumo queimou minha boca. Estava
provando para ela mesma, nela mesma, que estava ficando bom naquele
negócio de embalsamar corpos. Foi só quando terminei e vi seu corpo
que percebi – eu estava tão morto quanto ela.
Não podemos ser
descrentes quando infelicidades acontecem em nossas vidas, ainda mais
quando você tem uma filha para cuidar. Maria era tudo que me restava
e eu precisava manter a sanidade por ela.
Se as coisas
acontecem por infortúnio do destino, eu não sei. Sinto que as vezes
a morte é uma essência que flutua num palco narrando uma peça de
tragicomédia as escuras. Porque estou dizendo isso? Bem, mesmo agora
com essa roupa e luvas, fumando meu cachimbo que mais uma vez se diz
amargo, e Maria ao meu lado, com seus brinquedos e sorrindo alegre
perguntando quando vou largar meu vício, me pergunto, se o seu
corpo, inerte na minha frente, vai ficar com o cheiro de fumo.
“Meu
corpo vai ficar com cheiro de cachimbo também, papai” diz Maria,
quando eu lhe ponho o ultimo brinco.
Desculpe,
Lucile.
Desculpe.

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