Plumas de um amanhã

Difícil respirar. Está tudo escuro, e tudo a minha volta parece se fechar. Não consigo dobrar os joelhos, não consigo virar meu corpo. É como se eu tivesse recém feito uma delicada cirurgia e não pudesse me mexer. A mente ajuda a pensar em coisas para justificar essa situação, para me deixar mais calmo. Uma sensação de agonia misturada com frustração. Fecho meus olhos e aperto-os bem. Que burrice! Já está tudo escuro mesmo, o que me resta a fazer agora é esperar… esperar… morr.. NÃO! Fique calmo, concentre-se! Lembro que deve haver uma saída por onde entrei. Mas, não tenho forças para sair daqui sozinho, será que alguém do outro lado sabe? Será que virão me resgatar? Quem está lá? Por favor, alguém… qualquer pessoa.
No limiar do desespero a respiração parece ficar mais difícil do que antes, sinto o ar pesado, se pudesse enxergar provavelmente minha visão estaria turva. Sou inocente, porque estou nesse cárcere, nunca fiz nada de errado em minha vida. Óbvio que não sou perfeito, e mesmo que tivesse cometido todos os crimes abomináveis, não merecia isto, ninguém merece. Meu lábio inferior está tremendo, mas o que é isso? A agonia aumenta. Serro os punhos inconsolado por esse mal que habita… que habita? Ou que habito?
-AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA. – grito tão alto que meus ouvidos estouram. Começo a me debater. Os joelhos atingem o interior de onde estou. Dor.
-Calma, calma. Pense em alguma coisa. – lembro-me de ter lido em algum lugar que em momentos como esse o cérebro trabalha mais rápido. Parece que tem haver com a adrenalina, não sei ao certo. – Vamos mente, funcione, funcione! – Começo a suar frio. Ao meu redor as paredes parecem se fechar mais. Meu mundo, minha condição.
Lembro-me de levantar cedo algumas semanas atrás, ir até a cozinha e preparar um excelente café – podia não ter habilidade em muitas coisas, mas sabia fazer um bom café. Não havia nuvens no céu, e ao me sentar na cozinha para beber o café lembro-me de olhar pela janela e ver meu jardim: estávamos no meio da primavera e embora nunca tivesse cuidado de flores, elas floresciam belas. Havia todos os tipos: rosas, margaridas, tulipas. Nossa, como são belas essas memórias. Aquele dia, era especial, sim, as coisas estavam dando certo, ela fazia parte da minha vida agora. Seu cabelo era cacheado e curto, tinha um rosto delicado com olhos grandes, sua boca era pequena e macia. Sua boca era pequena e macia. Sua boca…
-Coff.. coff.. aarrghh! – começo a tossir, me dou conta de onde estou novamente. Merda. O que foi esse momento? Minha mente deve estar definhando. É assim então a sensação de morrer em um lugar desses. Ser traído pelo próprio corpo, você quer se perder na ilusão da vida perfeita, mas a mente não permite, ela quer lutar por você. Ora, que bobagem.
Vejo ela, sinto seu cheiro, sua mão tocando meu rosto, sua boca finalmente me beija.
Eu me entrego, aos seus braços.
Não, não eram os braços dela que eu estava falando. Não tinha escolha, não havia saída. Deixe-me perder na utopia, deixe-me levar pelo colorido das melhores flores, e o sabor do melhor café, na mais bela manhã de primavera. Mesmo que perdido aqui, nos confins de sabe-se lá onde.
As paredes encolhem mais ainda. Eu tento me espremer mesmo sabendo que não conseguiria muito.  Espremer… laranjas! Quando fazia calor na primavera era suco de laranja que eu gostava de tomar nos cafés. Sempre pensava no processo de espremê-las. CÉUS! O que estou pensando? Deve ser a falta de oxigênio, me fazendo delirar.
Sinto-me sem forças. Sinto que minha mente quer me levar para longe daqui. Me carrego em seu colo, me entrego ao seu quente abraço. Não enxergo nada, mas sei que meus olhos agora pesam mais que nunca. Começo a sonhar. A principio parece que estou em casa, na minha cozinha sentindo cheiro de café e olhando as flores de meu quintal pela janela. Mas sei que aquilo é um sonho, provocado pela perda de consciência dada à falta de oxigênio e que a morte já se aproxima. Tudo bem, não pensaria em lugar melhor para estar nesse momento se não aqui. Aqui, em paz…

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