O urubu pairava sobre o ar esperando que a última vítima do intenso conflito estivesse além desse mundo para saborear sua salgada carne. Diferente de seus irmãos que já estavam no solo comendo a carcaça de muitos desafortunados, este aguardava a carcaça de Johnny Coe. O árido deserto se tornara um campo de batalha mortal naquele verão. De Notch Forks, até o vale dos Apaches, os tiros voaram sem misericórdia. A batalha durou um dia inteiro e acabou no fim da tarde. O sol já se pusera, ali mesmo, barganhando por entre as almas penadas e o sacrilégio que estava surgindo de um homem que debochava enquanto caminhava, mancando, por entre seus inimigos e companheiros. Além de Johnny, ele era o único que sobrevivera, seus ferimentos eram apenas superficiais, infelizmente não andaria novamente como antes. A nobre montanha ao fundo foi a última paisagem que Johnny viu quando este homem se interpôs entre eles. Tentou inutilmente alcançar sua Colt, banhada em rubro pelo que não sabia mais ser seu sangue ou de alguém cujo disparara a queima roupa. Porém, foi aquele homem que pegou a Colt e não Johnny.
-Isso.. foi uma briga do cão, parceiro – dizia o homem. – No meu ramo de trabalho nós temos que sair dando prioridades a certos detalhes, coisas mundanas sabe, nada que tenha relevância. Coisas que gente como você ignoraria a primeira vista. Mas sabe, os detalhes, eles fazem a diferença, são importantes quando vem a calhar. E porque eu estou lhe dizendo isso, parceiro? Bem, porque, vendo você no estado que está, tenho certeza que não sobreviveria nem um segundo a mais. Poderia virar minhas costas, sair caminhando e antes de conseguir beber o primeiro trago de conhaque você já estaria morto. Mas, vou lhe dizer, eu não pretendo correr nenhum risco. Não se preocupe, não é nada pessoal. São só negócios.
Johnny arquejou, cuspiu sangue e segurou o calcanhar do homem. Procurou forças por entre os ferimentos. Respirou profundamente para dizer algumas palavras, seu peito doeu como se tivesse engolido várias agulhas, mas conseguiu dizer por fim.
-O ouro.. Carter, eu sei onde está enterrado.. se me matar.. jamais terá ele. – era uma dor maldita a que Johnny sentia.
-O ouro, claro.
Carter engatilhou o revolver e apontou para o rosto de Johnny enquanto este tentava olhar além da arma, de sua própria arma, para os olhos de Carter.
O urubu se preparou para descer quando o disparo foi feito.
-Como acha que vou beber aquele conhaque parceiro? – Carter largou a Colt ao lado do corpo de Johnny Coe.
Afastou-se do campo de batalha com o joelho doendo e o ego elevado. Pediria dois dedos de conhaque no saloon mais próximo.
Dois dedos.

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